Entenda o sistema de graduação de escalada em gelo e mista
Atualizado: 11 de set.
Se você já navegou pelo portfólio de expedições de alta montanha da Aventura Alpina com certeza cruzou com siglas como AD+, D ou M4. Para quem está acostumado apenas com o trekking ou com o sistema brasileiro de graduação de escalada em rocha (como 4º, 5º ou 6º grau), essas letras e números de padrão internacional podem mais confundir do quê esclarecer.
Entender cada uma é fundamental para planejar seus próximos cumes com segurança, dentro de suas capacidades atuais.
Neste artigo vamos desmistificar o sistema internacional de graduação para escalada em gelo e mista usando os nossos próprios roteiros na Cordilheira Blanca e nos Alpes como exemplos práticos de cada terreno.
1. Escalada em Gelo Alpina - graduação francesa
A escola é a grande referência mundial tanto em graduação de gelo quanto de rocha. Foram pioneiros neste sistema, visando classificar as rotas pelo "pacote completo": altitude, duração, perigos objetivos (como fendas e avalanches), o nível de esforço exigido na média e principalmente no crux (trecho mais difícil). Graduação em gelo:
F (Facile / Fácil): Caminhada em glaciar, pouca inclinação. Ex: Aconcágua pelas rotas de Horcones e 360.
PD (Peu Difficile / Pouco Difícil): Algumas seções técnicas simples, uso de corda e crampons necessário. Ex: Travessia dos 4 Refúgios na Patagônia, Orizaba no México.
AD (Assez Difficile / Algo Difícil): Inclinações sustentadas na neve ou gelo, começa a exigir boa técnica e experiência. Ex: Tronador no Paso de Las Nubes, Yanapaccha no Peru.
D (Difficile / Difícil): Escalada técnica sustentada e séria em gelo/rocha, alta exposição. Ex: Alpamayo na Cordilheira Blanca peruana, Artesonraju (D+), Matterhorn pela via Schmid (D+).
TD (Très Difficile / Muito Difícil): Rotas muito longas, remotas e altamente técnicas.
ED (Extrêmement Difficile / Extremamente Difícil): O topo do alpinismo mundial.
Nota: Os sinais de + ou - são usados para refinar o grau (ex: AD+ é um pouco mais difícil que AD, mas não chega a ser D).
Para escala em gelo há também o sistema internacional da UIAA, mas é menos difundido que o francês, por isso não irei me aprofundar neste.
3. A Escala de Escalada Mista (M - Mixed)
Considero o tipo de escalada mais desafiador que existe. Envolve um nível de comprometimento, controle mental, proficiência em todos os tipos de terreno e planejamento para longas expedições que destoa do restante. Trata-se de um terreno intercalado de rocha, gelo e neve. Para vencer esses trechos usamos os crampons tecnicos, botas duplas, sapatilha em alguns casos e piolets tanto em gelo quanto em fendas, técnica conhecida como dry-tooling.
A Escala M varia hoje de M1 a M16:
M1 a M3: Terreno de baixa inclinação. Pouco uso técnico das ferramentas.
M4 a M6: O terreno fica vertical. Exige movimentos técnicos de dry-tooling em agarras de rocha, muitas vezes alternando com golpes no gelo fino.
M7 a M16: O teto da modalidade. Envolve tetos de rocha completamente horizontais (cavernas), agarras minúsculas e força física extrema.
E o Sistema WI (Water Ice)
A sigla WI significa Water Ice. A diferença do alpino francês é que este NÃO considera o "pacote completo" (altitude, duração, perigos objetivos), apenas o crux da via. Usado em vias esportivas e para ilustrar o crux de longas escaladas alpinas. A escala vai de WI1 até WI7 (com algumas discussões para níveis maiores em condições extremas), definido pela combinação da inclinação da parede, consistência do gelo e a facilidade de colocações de proteção.
WI1: Gelo muito plano e de baixa inclinação. Dá para subir quase caminhando, sem precisar fincar os piolets.
WI2: Gelo firme com inclinação de até 60 graus. Excelente para quem está começando.
WI3: A inclinação chega a 70 ou 80 graus, com pequenos trechos totalmente em pé (verticais). Ainda oferece bons lugares para descansar os braços e colocar parafusos.
WI4: Paredes verticais longas (perto de 90 graus). Exige braços fortes e boa técnica, pois os pontos de descanso começam a diminuir.
WI5: Uma escalada muito dura e cansativa. São longos trechos totalmente verticais (90 graus) em gelo que pode ser fino ou frágil, dificultando a proteção.
WI6: Gelo técnico ao extremo, quase sem descanso, podendo ser quase teto (gelo suspenso) e muito frágil.
WI7: O topo da dificuldade física e psicológica. Gelo extremamente fino, colunas que podem quebrar e onde é quase impossível colocar proteção segura.
As Graduações na Prática: Exemplos do Nosso Portfólio
Para ajudar você a visualizar como essas siglas se traduzem no mundo real, veja como dividimos três dos roteiros clássicos que operamos na Cordilheira Blanca, no Peru:
Yanapaccha (5.460m) — O Campo Escola Perfeito
Graduação Francesa: AD- (Algo Difícil Inferior)
Na prática: O Yanapaccha é a nossa grande sala de aula de alta montanha. Sua rota não apresenta dificuldades mistas (rocha), focando puramente em rampas de neve e gelo com inclinações moderadas (até 65° no topo). É ideal para quem já pratica alta montanha de baio nível técnico como Aconcágua, Everest BC, Damavand, Cerro Plata, mas deseja adentrar no universo da escalada alpina vertical.

Alpamayo (5.947m) — 400m de escalada vertical
Graduação Francesa: D (Difícil)
Na prática: Considerada uma das montanhas mais estéticas do planeta, o Alpamayo exige uma escalada técnica impressionante. São cerca de 400 metros de canaleta de gelo contínua, com inclinações que variam de 70° a 85°. Dependendo do ano e das condições climáticas, o gelo na canaleta pode afinar e expor a rocha viva, exigindo que o montanhista domine lances mistos (M4) a quase 6.000 metros de altitude.

Artesonraju (6.025m) — A Pirâmide Técnica
Graduação Francesa: D+ (Difícil Superior)
Na prática: A famosa montanha que inspirou o logotipo da Paramount é um desafio longo e exposto. Sua crista norte com inúmeras cravasses e poucas expedições por temporada tornam a escalada mais desafiadora e inóspita que em seu vizinho Alpamayo na Cordilheira Blanca peruana. São pouco mais de 10 expedições totais por ano em média, roteiro explusivo da AA dentre agências brasileiras.

Matterhonr (4.478m) — O maior clássico mundial
Graduação Francesa: D+ (Difícil Superior)
Na prática: Um dos berços do montanhismo técnico em gelo, o Matterhorn na Suíça é sonho de todo praticante sério do esporte. A viia Schimd foipalco de uma das maiores disputas modernas entre Ueli Steck e Dan Arnold pelo seu record de ascenção. Escalada mista de grande complexidade.
Qual o seu próximo passo?
Entender o sistema internacional de graduações tira o "mistério" do planejamento e ajuda você a construir uma evolução sólida. Ninguém começa pelo Alpamayo; a jornada correta envolve consolidar a base, fazer cursos práticos de gelo e progredir gradativamente nos desafios.
"No montanhismo não se pega elevador, mas sim a escada degrau por degrau". Respeite esse ditado popular e siga em segurança na busca por seus sonhos.





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