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Entenda o sistema de graduação de escalada em gelo e mista

Foto do escritor: @andreperlatti
@andreperlatti
10 de set.
5 min de leitura

Atualizado: 11 de set.


Se você já navegou pelo portfólio de expedições de alta montanha da Aventura Alpina com certeza cruzou com siglas como AD+, D ou M4. Para quem está acostumado apenas com o trekking ou com o sistema brasileiro de graduação de escalada em rocha (como 4º, 5º ou 6º grau), essas letras e números de padrão internacional podem mais confundir do quê esclarecer.

Entender cada uma é fundamental para planejar seus próximos cumes com segurança, dentro de suas capacidades atuais.


Neste artigo vamos desmistificar o sistema internacional de graduação para escalada em gelo e mista usando os nossos próprios roteiros na Cordilheira Blanca e nos Alpes como exemplos práticos de cada terreno.


1. Escalada em Gelo Alpina - graduação francesa

A escola é a grande referência mundial tanto em graduação de gelo quanto de rocha. Foram pioneiros neste sistema, visando classificar as rotas pelo "pacote completo": altitude, duração, perigos objetivos (como fendas e avalanches), o nível de esforço exigido na média e principalmente no crux (trecho mais difícil). Graduação em gelo:

  • F (Facile / Fácil): Caminhada em glaciar, pouca inclinação. Ex: Aconcágua pelas rotas de Horcones e 360.

  • PD (Peu Difficile / Pouco Difícil): Algumas seções técnicas simples, uso de corda e crampons necessário. Ex: Travessia dos 4 Refúgios na Patagônia, Orizaba no México.

  • AD (Assez Difficile / Algo Difícil): Inclinações sustentadas na neve ou gelo, começa a exigir boa técnica e experiência. Ex: Tronador no Paso de Las Nubes, Yanapaccha no Peru.

  • D (Difficile / Difícil): Escalada técnica sustentada e séria em gelo/rocha, alta exposição. Ex: Alpamayo na Cordilheira Blanca peruana, Artesonraju (D+), Matterhorn pela via Schmid (D+).

  • TD (Très Difficile / Muito Difícil): Rotas muito longas, remotas e altamente técnicas.

  • ED (Extrêmement Difficile / Extremamente Difícil): O topo do alpinismo mundial.

Nota: Os sinais de + ou - são usados para refinar o grau (ex: AD+ é um pouco mais difícil que AD, mas não chega a ser D).


Para escala em gelo há também o sistema internacional da UIAA, mas é menos difundido que o francês, por isso não irei me aprofundar neste.


3. A Escala de Escalada Mista (M - Mixed)

Considero o tipo de escalada mais desafiador que existe. Envolve um nível de comprometimento, controle mental, proficiência em todos os tipos de terreno e planejamento para longas expedições que destoa do restante. Trata-se de um terreno intercalado de rocha, gelo e neve. Para vencer esses trechos usamos os crampons tecnicos, botas duplas, sapatilha em alguns casos e piolets tanto em gelo quanto em fendas, técnica conhecida como dry-tooling.


A Escala M varia hoje de M1 a M16:

  • M1 a M3: Terreno de baixa inclinação. Pouco uso técnico das ferramentas.

  • M4 a M6: O terreno fica vertical. Exige movimentos técnicos de dry-tooling em agarras de rocha, muitas vezes alternando com golpes no gelo fino.

  • M7 a M16: O teto da modalidade. Envolve tetos de rocha completamente horizontais (cavernas), agarras minúsculas e força física extrema.


E o Sistema WI (Water Ice)

A sigla WI significa Water Ice. A diferença do alpino francês é que este NÃO considera o "pacote completo" (altitude, duração, perigos objetivos), apenas o crux da via. Usado em vias esportivas e para ilustrar o crux de longas escaladas alpinas. A escala vai de WI1 até WI7 (com algumas discussões para níveis maiores em condições extremas), definido pela combinação da inclinação da parede, consistência do gelo e a facilidade de colocações de proteção.

  • WI1: Gelo muito plano e de baixa inclinação. Dá para subir quase caminhando, sem precisar fincar os piolets.

  • WI2: Gelo firme com inclinação de até 60 graus. Excelente para quem está começando.

  • WI3: A inclinação chega a 70 ou 80 graus, com pequenos trechos totalmente em pé (verticais). Ainda oferece bons lugares para descansar os braços e colocar parafusos.

  • WI4: Paredes verticais longas (perto de 90 graus). Exige braços fortes e boa técnica, pois os pontos de descanso começam a diminuir.

  • WI5: Uma escalada muito dura e cansativa. São longos trechos totalmente verticais (90 graus) em gelo que pode ser fino ou frágil, dificultando a proteção.

  • WI6: Gelo técnico ao extremo, quase sem descanso, podendo ser quase teto (gelo suspenso) e muito frágil.

  • WI7: O topo da dificuldade física e psicológica. Gelo extremamente fino, colunas que podem quebrar e onde é quase impossível colocar proteção segura.


As Graduações na Prática: Exemplos do Nosso Portfólio

Para ajudar você a visualizar como essas siglas se traduzem no mundo real, veja como dividimos três dos roteiros clássicos que operamos na Cordilheira Blanca, no Peru:


Yanapaccha (5.460m) — O Campo Escola Perfeito

  • Graduação Francesa: AD- (Algo Difícil Inferior)

  • Na prática: O Yanapaccha é a nossa grande sala de aula de alta montanha. Sua rota não apresenta dificuldades mistas (rocha), focando puramente em rampas de neve e gelo com inclinações moderadas (até 65° no topo). É ideal para quem já pratica alta montanha de baio nível técnico como Aconcágua, Everest BC, Damavand, Cerro Plata, mas deseja adentrar no universo da escalada alpina vertical.


Cordada por cornija, a 60m do cume
Cordada por cornija, a 60m do cume

Alpamayo (5.947m) — 400m de escalada vertical

  • Graduação  Francesa: D (Difícil)

  • Na prática: Considerada uma das montanhas mais estéticas do planeta, o Alpamayo exige uma escalada técnica impressionante. São cerca de 400 metros de canaleta de gelo contínua, com inclinações que variam de 70° a 85°. Dependendo do ano e das condições climáticas, o gelo na canaleta pode afinar e expor a rocha viva, exigindo que o montanhista domine lances mistos (M4) a quase 6.000 metros de altitude.


Kleberson e Ary na 8ª cordada da via Peruana-Canadense
Kleberson e Ary na 8ª cordada da via Peruana-Canadense

Artesonraju (6.025m) — A Pirâmide Técnica

  • Graduação  Francesa: D+ (Difícil Superior)

  • Na prática: A famosa montanha que inspirou o logotipo da Paramount é um desafio longo e exposto. Sua crista norte com inúmeras cravasses e poucas expedições por temporada tornam a escalada mais desafiadora e inóspita que em seu vizinho Alpamayo na Cordilheira Blanca peruana. São pouco mais de 10 expedições totais por ano em média, roteiro explusivo da AA dentre agências brasileiras.


Kleberson no dia de cume pela face norte. Foto André Perlatti.
Kleberson no dia de cume pela face norte. Foto André Perlatti.

Matterhonr (4.478m) — O maior clássico mundial

  • Graduação  Francesa: D+ (Difícil Superior)

  • Na prática: Um dos berços do montanhismo técnico em gelo, o Matterhorn na Suíça é sonho de todo praticante sério do esporte. A viia Schimd foipalco de uma das maiores disputas modernas entre Ueli Steck e Dan Arnold pelo seu record de ascenção. Escalada mista de grande complexidade.


Qual o seu próximo passo?

Entender o sistema internacional de graduações tira o "mistério" do planejamento e ajuda você a construir uma evolução sólida. Ninguém começa pelo Alpamayo; a jornada correta envolve consolidar a base, fazer cursos práticos de gelo e progredir gradativamente nos desafios.


"No montanhismo não se pega elevador, mas sim a escada degrau por degrau". Respeite esse ditado popular e siga em segurança na busca por seus sonhos.

 
 
 

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