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ESCALADA ESPORTIVA NO BRASIL: O RETRATO DOS ATLETAS PROFISSIONAIS E AMADORES

O guia de montanha da Aventura Alpina e educador físico Marcos de Almeida, junto com Dimitri Wuo Pereira, Roberto Dinato Casanova e Diogo Henrique Lima Prado, tem artigo sobre o perfil dos atletas brasileiros de escalada esportiva publicado na FAPERJ (Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro). O estudo foi aplicado em 81 competidores do Campeonato Brasileiro de Boulder de 2018. Foram analisados os tipos de treinamentos, intensidades, frequência, alimentação, dentre outros fatores que influenciam no rendimento dos mesmos.


RESUMO

Com a proximidade dos Jogos Olímpicos de 2020 cresce a importância de conhecer as novas modalidades que estarão neste evento. Em 2016 anunciou-se que a escalada seria olímpica e o interesse pelo esporte aumentou no Brasil. A história recente da construção de paredes de escalada e de competições no país remete à carência de informações que deem suporte à preparação de atletas, sendo necessário ampliar as investigações sobre o perfil dos competidores brasileiros. O objetivo da pesquisa foi demonstrar as características dos atletas da escalada para que se possa inferir sobre como deve ser o treinamento. Aplicou-se um questionário em 81 atletas, sendo 47 na categoria profissional e 34 atletas na categoria amador, participantes do Campeonato Brasileiro de Boulder de 2018, em São Paulo. Após análise dos resultados, verificou-se que o maior polo de escaladores no Brasil, se encontra na região Sul e Sudeste. O tempo de prática, em anos, dos profissionais foi maior do que os amadores, revelando a importância da experiência na busca de resultados. O baixo índice de massa corporal dos atletas demonstra a luta para vencer a força da gravidade neste esporte. Os atletas procuram realizar treinos aeróbios, musculação, alongamento, entre outros para melhorar suas capacidades físicas e verifica-se cada vez mais atletas buscando o acompanhamento de treinador para melhorar o desempenho. Os treinadores são procurados por sua experiência na prática da escalada, mas não se vê ainda grande preocupação dos atletas no conhecimento acadêmico destes profissionais. Por fim, conclui-se apontando para a falta de patrocínio destes atletas.

PALAVRAS-CHAVE: Escalada esportiva, Atleta, Competição.


INTRODUÇÃO

A escalada pode ser compreendida por diferentes perspectivas. Do ponto de vista cultural, a escalada foi se construindo historicamente desde o século XVII na Europa com as conquistas das mais altas montanhas e desenvolvendo modos de vida específicos entre aqueles que viviam próximos aos grandes picos. Ela evoluiu para diferentes ambientes naturais desde as montanhas com mais de 4000 metros de altitude, até rochas com menos de uma centena de metros, sempre desafiando a verticalidade natural e obtendo sucesso com o aprimoramento de equipamentos e técnicas específicas em cada lugar. Mais recentemente, no final do século XX, surgiram as paredes artificiais, nas quais foi possível comparar os feitos atléticos dos escaladores em locais desenvolvidos especialmente para competições. Criou-se a escalada esportiva indoor e o circuito mundial teve seu princípio em 1989 (TOMASZEWSKI; GRAJEWSKI; LEWANDOWSKA, 2011). Desde então, os campeonatos espalharam-se pelo mundo, tal qual ocorre com a quase totalidade das atividades corporais nas quais se pode mensurar esforços e desempenhos (PEREIRA, 2010).


O surgimento da escalada indoor é impreciso, todavia a literatura acadêmica aponta para as décadas de 1970 e 1980, provavelmente na Rússia ou na Itália. Porém, há registros de que em 1939 nos EUA já eram fixadas pedras em paredes para a prática da escalada (SILVA et al. 2007). Na década de 1960 um muro de tijolo também com pedras foi montado numa escola na Inglaterra. No mesmo país, o professor de Educação Física Don Robinson foi responsável por criar uma parede no ano de 1964 na Universidade de Leeds em que lecionava. E antes dele, outras duas escolas nas cidades de West Midlands (1961) e Notthingam (1962) tiveram suas paredes construídas para incentivar a prática esportiva entre os jovens (FERNANDES, 2018). É provável que as diferenças de datas se relacionem com a dificuldade de registrar e divulgar essas paredes, pois a própria escalada em rocha e gelo ainda estava se estabelecendo na sociedade. Além disso, a tecnologia permitiu, a partir das década de 1970, que se criassem agarras feitas em resina plástica misturadas a minérios, que permitem moldar pegas variadas e com alta resistência facilitando a difusão da escalada indoor e permitindo a criação de campeonatos com maior qualidade, portanto, é compreensível que o período entre 1970-80 tenha sido crucial para a expansão da escalada em paredes artificiais. Segundo Bertuzzi et al (2001) o primeiro local específico para a prática da escalada indoor no Brasil foi construído em 1993 em São Paulo, o que mostra que além do país não ter uma geografia com altas montanhas e picos de neve, o que não contribui para uma cultura de montanha como se vê na Europa, EUA e Argentina, ainda demorou um bom tempo para se iniciar a construção de paredes de escalada que facilitam o acesso do público à prática do esporte.


Em 2016, o Comitê Olímpico Internacional (COI) definiu a entrada das novas modalidades para os Jogos Olímpicos de Tóquio, foram elas: skate, surfe, caratê, beisebol e escalada (BRASIL 2016). A partir de então, a International Federation of Sport Climbing (IFSC), orgão máximo que cuida da escalada competitiva mundial, iniciou um processo de preparação para que a modalidade apresente-se dentro dos padrões exigidos pelo COI e se estabeleça como esporte olímpico definitivamente. Segundo o presidente da IFSC, a participação nos Jogos Olímpicos dará dignidade e reconhecimento à escalada esportiva e o mundo terá a oportunidade de ver uma modalidade espetacular, limpa, dinâmica e jovem em Tóquio (SCOLARIS, 2017).


No Brasil, o primeiro campeonato de escalada foi realizado no ano de 1989 e vencido por Paulo “Macaco” Bastos (ILHA, 2010), naquela época o país ainda engatinhava no esporte e a dificuldade das vias eram em torno de 7º grau, muito pouco comparado à atualidade, em que as vias de campeonato estão em torno de 9º grau, mas para a realidade nacional, os feitos deste campeão e de outros escaladores da época eram notáveis. Recentemente foi criada a Associação Brasileira de Escalada Esportiva (ABEE) que é a instituição associada à IFSC e que tem por função organizar as competições, promover o esporte e indicar os atletas para campeonatos internacionais. O Brasil não possui tradição na escalada esportiva e nossos atletas não conseguem bons resultados em competições internacionais. Na tentativa de reverter esse quadro, a ABEE conseguiu montar uma equipe com homens e mulheres para disputar algumas etapas dos principais campeonatos mundiais, pois pretende dar experiência aos atletas e ainda pretende-se que algum deles consigam passar para as semifinais, feito apenas conseguido em 2009, com o atleta Cesar Grosso que ficou na 15ª colocação na Copa do Mundo de Barcelona (ABEE, 2018).


Diante disso, a hipótese inicial deste estudo foi que os atletas “profissionais” (PRO) devem estar em um nível mais organizado e elevado de treinamento em comparação aos escaladores “amadores” (AMA), portanto, este trabalho pretende compreender alguns motivos que condicionam os resultados pouco favoráveis dos atletas brasileiros em competições e procura analisar quais seriam as medidas cabíveis para que se melhore o desempenho em futuras competições.


MATERIAIS E MÉTODOS

Amostra

Oitenta e um escaladores (51 homens e 30 mulheres) participaram voluntariamente do estudo. A categoria PRO foi composta de 47 escaladores (idade 30,2 ± 6,6; altura 1,70 ± 0,26m; massa corporal 62,8 ± 9,0 kg; índice de massa corporal (IMC) 20,8 ± 1,6 kg·m2) e a categoria AMA foi composta de 34 escaladores (idade 22,8 ± 8,1; altura 1,71 ± 0,11 m; massa corporal 61,9 ± 9,6 kg; índice de massa corporal 21,1 ± 1,9 kg·m2). Ressalta-se que houve um atleta da categoria PARACLIMBING (atletas com deficiência) que disputou na categoria amador.


Trata-se de uma pesquisa descritiva com abordagem qualitativa e quantitativa, que busca determinar e descrever as opiniões de uma população específica (THOMAS e NELSON, 2002), podendo produzir um perfil dos escaladores de competição brasileiro. A

pesquisa foi realizada durante o Campeonato Brasileiro de Boulder ocorrido no ginásio Casa de Pedra situado na cidade de São Paulo, Brasil e faz parte das etapas do ranking de escalada nacional. O formato Boulder consiste em subir paredes com cerca de 4 metros de altura e a segurança é feita com o uso de colchões. Todos participantes assinaram o termo de consentimento livre esclarecido (TCLE) aprovado pelo comitê de ética para estudos com humanos da Universidade Nove de Julho (número do parecer nº 82.781).


Procedimentos

Foi aplicado um questionário baseado na pesquisa de Pereira e Manoel (2008) que traçou o perfil de escaladores do Estado de São Paulo. Neste instrumento, perguntou-se aos participantes do Campeonato Brasileiro de Boulder de 2018 sobre o tempo de prática da escalada, a modalidade preferida, o tempo dedicado aos treinamentos, as atividades realizadas complementares ao treino específico de escalada, a presença de treinador para o atleta e a existência de patrocínio.


O questionário foi respondido cerca de uma hora antes do início da competição, na área conhecida como isolamento, em que os atletas ficam confinados com o objetivo de evitar a visualização prévia das vias que serão escaladas durante a competição. Esta regra é utilizada para que um atleta não tenha a vantagem de observar como o adversário fez suas tentativas.


Análise estatística

Por meio do software Statistica v.8 (StatSoft, Inc.), verificou-se a normalidade das distribuições das variáveis (teste de Shapiro-Wilk). As variáveis idade, peso, massa corporal, índice de massa corporal, frequência de treino por semana e horas de treino na semana, foram apresentadas como médias ± desvios padrão. As comparações entre os grupos foram realizadas por meio de teste t de Student para amostras dependentes.


Para as variáveis tempo em que o atleta pratica a escalada, tipo de escalada, ambiente preferido, patrocínio aos atletas, atividades complementares, acompanhamento profissional, treinador escalador e formação do treinador, foi realizado uma análise descritiva comparando as respostas dos atletas PRO com os AMA e identificando na literatura aspectos que possam colaborar para a compreensão das diferenças e semelhanças entre os grupos e das necessidades de ajustes na forma de treinamento e na organização da escalada esportiva brasileira.


Foram consideradas diferenças estatísticas com nível de significância igual a 5% (α =0,05).


RESULTADOS

Do indivíduo

Sobre os dados de massa corporal, altura e IMC, não houve diferenças entre os atletas das categorias PRO masculino e AMA masculino, tampouco nas categorias PRO feminino e AMA feminino (Tabela 1). Isto indica que há um padrão homogêneo em relação ao IMC, pois o atleta sente a necessidade de baixo índice de massa corporal para vencer a força da gravidade. Em relação ao número de horas de treino por dia, todos os escaladores afirmam treinar entre 2 a 5 horas em cada sessão.



Tabela 1 - Médias e desvio padrão dos entre os grupos PRO E AMA.

Variáveis Masculino Feminino

PRO AMA p1 PRO AMA p1

Altura (m) 1,77 ± 0,07 1,78 ± 0,07 0,37 1,65 ± 0,04 1,62 ± 0,07 0,17

Massa corporal (kg) 67,4 ± 8,8 67,5 ± 7,3 0,97 54,8 ± 5,09 54,9 ± 7,30 0,96

IMC (kg·m2) 21,3 ± 1,6 21,3 ± 2,1 0,89 20,1 ± 1,71 0,7 ± 1,80 0,44

p1 teste t de Student


A respeito do tempo em que o atleta pratica a escalada, nota-se que os atletas PRO possuem um tempo superior a 5 anos em relação aos escaladores AMA que escalam em média 2,5 anos, o que demonstra que a experiência em competições de escalada é um fator importante de desempenho.


Outro item investigado foi em relação a preferência do atleta quanto ao tipo de escalada (Boulder ou Esportiva). Os participantes da pesquisa podiam escolher uma ou as duas opções. Dentre o grupo de escaladores PRO, 38% preferem escalar apenas Boulder, 32% tem preferência pela escalada esportiva e 30% não tem uma preferência definida, escalam Boulder e esportiva. Para o grupo AMA, observou-se que 59% preferem escalar apenas Boulder, 29% preferem esportiva e apenas 12% escalam as duas modalidades.


Sobre o local, verificou-se que na categoria PRO houve um maior interesse pela rocha (62%). Para a categoria AMA a escolha do indoor está bem equilibrada com a rocha (41% e 44%, respectivamente). O menor tempo de experiência da categoria AMA pode ter contribuído para o menor interesse em escalar na rocha, uma vez que, são necessários conhecimentos mais profundos sobre técnicas de segurança e maiores custos de equipamentos e viagens aos locais de prática.


Da relação indivíduo - sociedade

Todos os atletas que responderam o questionário são das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste (Figura 1). A maior presença de atletas de São Paulo, provavelmente, decorre do campeonato ter sido no próprio Estado, porém Minas Gerais aparece com mais de 20 atletas, nas duas categorias, o que demonstra boa organização dos atletas deste Estado. Observa-se que as demais regiões não estão representadas, o que demonstra que a escalada indoor ainda não se difundiu por todo o país.


Número de atletas - Unidades Federativas

PRO AMADOR

MG 11 2

SC 4 0

SP 20 21

RS 1 4

PR 4 3

RJ 3 1

DF 0 2


Figura 1 – Número de escaladores nas categorias PRO e AMADOR em cada estado. Outra observação interessante do estudo foi em relação à presença de patrocínio dos atletas. O estudo revelou que 63,8% dos escaladores da categoria PRO possuem patrocínio, o que torna preocupante o fato de como, aproximadamente 1/3 dos atletas, pode se dedicar efetivamente ao esporte competitivo sem conseguir um apoio necessário à manutenção de desempenho.


Do treinamento

Foi perguntado aos escaladores que tipo de treinamento era realizado concomitante ao treinamento de escalada. Os resultados demonstraram que 52,8% dos escaladores realizavam sessões de alongamento, 54,2% fazem treinos aeróbios e 31,9% realizam treinos de musculação. Desta forma, podemos observar que a escalada competitiva não se resume apenas a prática na parede de escalada, mas, que treinamentos complementares também são importantes na preparação dos atletas.


No esporte competitivo o acompanhamento de um treinador mostra-se decisivo na busca de resultados em quase todas as modalidades, tal importância se revela na presença do treinador em praticamente todas as fases dos períodos competitivos, porém o que se viu na pesquisa foi que muitos não recebem orientação de um treinador. Entre os escaladores PRO, 46,5% relataram a presença de um treinador, sendo que entre os AMA, apenas 38,2% possuem um acompanhamento profissional.


Outra preocupação do estudo foi entender quais eram as formações dos profissionais que estavam atuando na preparação física dos escaladores. Verificou-se que 48,5% dos treinadores tem formação em Educação Física, 12,2% tem formação em Educação Física e Fisioterapia e apenas 3% é formado em Fisioterapia. Os resultados revelaram que 36,4% dos escaladores são treinados por pessoas que não possuem formação específica.


DISCUSSÃO

Verificou-se que a idade média dos atletas PRO masculino 28,5 anos e PRO feminino 30,2 anos, é maior do que do AMA masculino 23,0 anos e AMA feminino 24,9 anos. A idade mais avançada é sinal de experiência em campeonatos, de maior tempo de desenvolvimento das capacidades físicas e de habilidades motoras necessárias para um melhor desempenho.


Praticantes mais experientes também costumam ter melhor percepção das situações competitivas como escolha dos movimentos que vão usar, leitura das vias e controle sobre sua ansiedade, por já terem vivido situações competitivas.


Aspectos do indivíduo

Em relação ao peso, estatura e IMC encontrou-se semelhança com os dados de Cunha (2005) cuja pesquisa foi realizada em Portugal em que se comparou com dados de escaladores de elite de outros países, mostrando que os praticantes brasileiros estão dentro do padrão internacional. Este fator decorre da exigência do corpo de vencer a gravidade e aponta que a força exigida para erguer-se deve ser relativamente grande em comparação com o peso corporal total (TOMASZEWSKI; GRAJEWSKI; LEWANDOWSKA, 2011).


A faixa etária dos atletas obteve valores superiores aos encontrados por Cunha (2005) com 24,6 anos de idade e por Bertuzzi et al. (2001) com 23,6 anos de idade, para atletas de elite. Entende-se que os atletas brasileiros na média têm uma idade avançada, por um lado isto demonstra que são pessoas experientes no esporte e por outro, mostra que há pouca renovação. Apesar de alguns atletas mais jovens despontarem com bons resultados, eles não são a maioria. Mas os dados desta pesquisa corroboram a experiência superior a 5 anos de prática que as pesquisas de Cunha (2005) e Bertuzzi (2001) encontraram. Essa informação já foi apresentada por Pereira e Manoel (2008) referente ao Campeonato Paulista de escalada.


Acredita-se que os fatores: tempo de aprendizagem da técnica e da habilidade de escalar; longo tempo de estímulo ao esforço específico de suspender-se, predominantemente, com os membros superiores; necessidade de ganho de força muscular, articular e tendínea de membros superiores e mãos, para elevar as cargas de treino específicos da modalidade, são determinantes do desempenho na escalada esportiva competitiva o que mostra a necessidade de longo tempo escalando para obter resultados.


O atleta brasileiro não adota uma modalidade única de escalada, ou um ambiente único. Os resultados demonstram que os escaladores são ecléticos escalando em Boulder, em

paredes artificiais, e em rocha, tal qual observou Cunha (2005). É possível que este resultado interfira diretamente no desempenho, pois há diferenças entre as modalidades e o atleta pode treinar mais o tipo de escalada que prefere tornando-se menos preparado para a competição que vai disputar, caso ela seja na modalidade contrária.


Todavia, observa-se que o regulamento dos Jogos Olímpicos de Tóquio prevê a participação dos atletas nas modalidades dificuldade, boulder e velocidade, o que manifesta a necessidade de versatilidade e de treinar todos os tipos de escalada. Mesmo assim, focar em treinos em paredes artificiais, mais do que em rocha, é requisito para as competições, pois no ambiente artificial há diferenças entre pegas, texturas, cores de agarras e maior variação de vias, gerando uma especificidade à qual o esportista deve estar preparado.


Aspectos sociais

A escalada competitiva no Brasil está praticamente restrita ao Sul e Sudeste. Este fato pode decorrer do surgimento da escalada nestas regiões, da maior riqueza econômica que impacta nos materiais e construção de paredes de escalada e da distância dos campeonatos em relação ao Centro Oeste, Norte e Nordeste. Sodré et al. (2017) encontraram dados semelhantes na prática do slackline no Brasil, o que reforça a questão de origem e de força das regiões mais desenvolvidas no país na prática de esportes de aventura.


Outro dado obtido refere-se à pequena parcela de escaladores com patrocínio, o que impacta diretamente nas dificuldades de se preparar com eficiência, pois sem dinheiro e

tempo disponível torna-se difícil conseguir desempenho semelhante aos de atletas internacionais. Casagrande et al. (2014) demonstraram que cerca de 70% de atletas juvenis de tênis não têm patrocínio. Como o tênis, a escalada é uma esporte caro, o apoio à prática provém dos pais, principalmente para os mais jovens, que ainda não tem como se manter sozinhos. Nesta pesquisa encontrou-se uma média superior aos 25 anos e portanto, os atletas brasileiros conciliam trabalho, estudo e treinamento corroborando os dados de Albuquerque et al. (2008), o que demonstra que apesar do crescimento do número de atletas em campeonatos e da maior organização dos mesmos, ainda há carência de uma estrutura que sustente o praticante, principalmente na categoria PRO.


Aspectos do treinamento

Prevalece o resultado de três a cinco dias de treino por semana entre os participantes, seguindo valores encontrados em outras modalidades (NUNOMURA, PIRES e CARRARA, 2009; KELLER, 2006). Há atletas que informaram treinar sete vezes por semana, isso indica que, ou estão fazendo treino regenerativo em alguns dias, ou estão treinando em excesso. Talvez isto seja resultado da falta de treinador, ou da não observação da periodização correta do treinamento esportivo. Mas também há aqueles que treinam uma ou duas vezes por semana, indicando volume insuficiente para quem pretende competir e conseguir um desempenho satisfatório nos campeonatos.


Em relação ao número de horas de treino por sessão, verifica-se que os atletas PRO tem mais tempo de dedicação aos treinos do que os AMA. O tempo de treino por sessão dos atletas PRO correspondem ao encontrado por Pereira e Manoel (2008) para os participantes do Campeonato Paulista há 10 anos atrás e evidencia o desejo de manter-se preparado para os campeonatos, mesmo que as custas da falta de apoio suficiente. A disponibilidade dos atletas PRO fica dentro das exigências de tempo de atletas de elite e configura motivação para manter-se no esporte, mesmo com dificuldades.


Prevalece entre os atletas PRO a procura por treinamentos complementares, entre eles, o mais visto nas respostas é o alongamento e o relaxamento, o que mostra que a flexibilidade é vista como importante para os atletas e que o treinamento da escalada é exaustivo e requer a contrapartida do relaxamento para que se possa alcançar o melhor nos treinos de força e resistência. Estes números também tinham sido encontrados por Pereira e Manoel (2008). O treino funcional, a musculação e os exercícios aeróbios estão entre os preferidos entre os escaladores para completar o aperfeiçoamento físico, seja para o aumento da força corporal, ou para a melhora do aparelho cardiorrespiratório e perda de peso corporal. Porém, há atletas que não realizam nenhuma atividade além da própria escalada, o que é preocupante para competidores. Portela (2009) encontrou em escaladores de Santa Catarina uma procura de 25% por treinos complementares à escalada, contra 75% que apenas escalam. Segundo o autor, há maiores chances de lesão em escaladores que se recusam a realizar essas práticas, pois não se obtém os benefícios da flexibilidade, da resistência aeróbia e do fortalecimento muscular que complementam o treinamento em praticamente qualquer esporte competitivo.


Entre os atletas que participaram desta etapa do Campeonato Brasileiro encontrou-se que mais da metade treina por conta própria, inclusive na categoria PRO, cujo desempenho esperado é ainda maior. Novamente os dados corroboram aqueles encontrados por Pereira e Manoel (2008), percebe-se que mesmo após 10 anos entre as pesquisas o comportamento dos escaladores permanece pouco alterado. Alguns dos motivos talvez estejam no aprendizado pouco profissionalizado da escalada, da pouca participação de profissionais de Educação Física e de Fisioterapia nestas modalidades e em algum preconceito dos atletas em relação a esses profissionais, o que reflete nos dados obtidos de que muitos treinadores são escaladores, mas não tem formação nas áreas citadas. Verifica-se que a única referência importante para o escalador é o treinador ser praticante da modalidade, o que é importante, mas insuficiente para a exigência que o treinamento esportivo de alto rendimento cobra do atleta que pretende atingir a excelência na escalada. Vários estudos confirmam que as variáveis do treinamento esportivo são fundamentais para que os resultados na escalada sejam obtidos, motivo pelo qual se acredita que os atletas devem ter um trabalho organizado e orientado por profissionais com conhecimento científico e especializado na escalada (WATTS; MARTIN; DURTSCHI, 1993; BILLAT et al. 1995; BERTUZZI, et al., 2001; SILVA, et al., 2007; TOMASZEWSKI; GRAJEWSKI; LEWANDOWSKA, 2011).


CONCLUSÃO

Este trabalho reafirma a convicção de que atletas que pretendem participar de competição de escalada devem ter pelo menos 5 anos de prática para que possam suportar treinamentos mais intensos e exaustivos quando se trata da pretensão de profissionalismo. O tempo de prática dos atletas de ambas as categorias em dias e horas de treino mostrou que há dedicação dos praticantes brasileiros para atingir essas metas, o que fica demonstrado pelos índices de massa corporal e pelos treinamentos complementares cada vez mais utilizados no treinamento.


Apesar dos atletas preferirem diversificar o local e o tipo de escalada, conforme o

regulamento que deve ser usado nas seletivas para as Olimpíadas, sabe-se que há perda da especificidade, pois as qualidades de escaladores de boulder é diferente de escaladores de paredes altas.


Há necessidade de ampliar a prática da escalada competitiva em outros Estados, para que possam surgir atletas em regiões que ainda não estão representadas no campeonato brasileiro e aumentar a quantidade de praticantes para que apareçam jovens promissores. É importante investir em campeonatos em outras regiões do pais além da Sul e Sudeste, mesmo que com formatos diferentes para estimular o surgimento de novos potenciais.


Por fim, é oportuno que os atletas que pretendem competir busquem a orientação de treinadores que sejam praticantes de escalada e que de preferência conheçam as teorias de treinamento para evitar lesões, melhorar aspectos da saúde geral que permitam uma longevidade no esporte e avancem no rendimento físico para que possam se comparar no futuro aos atletas internacionais. Porém, a dificuldade em obter patrocínio ainda é um entrave no desenvolvimento dos atletas brasileiros e pensar em ações de marketing esportivo talvez seja um caminho para alcançar os resultados esperados por muitos de sucesso internacional.


REFERÊNCIA

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