ESCALADA ESPORTIVA NO BRASIL: O RETRATO DOS ATLETAS PROFISSIONAIS E AMADORES

O guia de montanha da Aventura Alpina e educador físico Marcos de Almeida, junto com Dimitri Wuo Pereira, Roberto Dinato Casanova e Diogo Henrique Lima Prado, tem artigo sobre o perfil dos atletas brasileiros de escalada esportiva publicado na FAPERJ (Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro). O estudo foi aplicado em 81 competidores do Campeonato Brasileiro de Boulder de 2018. Foram analisados os tipos de treinamentos, intensidades, frequência, alimentação, dentre outros fatores que influenciam no rendimento dos mesmos.


RESUMO

Com a proximidade dos Jogos Olímpicos de 2020 cresce a importância de conhecer as novas modalidades que estarão neste evento. Em 2016 anunciou-se que a escalada seria olímpica e o interesse pelo esporte aumentou no Brasil. A história recente da construção de paredes de escalada e de competições no país remete à carência de informações que deem suporte à preparação de atletas, sendo necessário ampliar as investigações sobre o perfil dos competidores brasileiros. O objetivo da pesquisa foi demonstrar as características dos atletas da escalada para que se possa inferir sobre como deve ser o treinamento. Aplicou-se um questionário em 81 atletas, sendo 47 na categoria profissional e 34 atletas na categoria amador, participantes do Campeonato Brasileiro de Boulder de 2018, em São Paulo. Após análise dos resultados, verificou-se que o maior polo de escaladores no Brasil, se encontra na região Sul e Sudeste. O tempo de prática, em anos, dos profissionais foi maior do que os amadores, revelando a importância da experiência na busca de resultados. O baixo índice de massa corporal dos atletas demonstra a luta para vencer a força da gravidade neste esporte. Os atletas procuram realizar treinos aeróbios, musculação, alongamento, entre outros para melhorar suas capacidades físicas e verifica-se cada vez mais atletas buscando o acompanhamento de treinador para melhorar o desempenho. Os treinadores são procurados por sua experiência na prática da escalada, mas não se vê ainda grande preocupação dos atletas no conhecimento acadêmico destes profissionais. Por fim, conclui-se apontando para a falta de patrocínio destes atletas.

PALAVRAS-CHAVE: Escalada esportiva, Atleta, Competição.


INTRODUÇÃO

A escalada pode ser compreendida por diferentes perspectivas. Do ponto de vista cultural, a escalada foi se construindo historicamente desde o século XVII na Europa com as conquistas das mais altas montanhas e desenvolvendo modos de vida específicos entre aqueles que viviam próximos aos grandes picos. Ela evoluiu para diferentes ambientes naturais desde as montanhas com mais de 4000 metros de altitude, até rochas com menos de uma centena de metros, sempre desafiando a verticalidade natural e obtendo sucesso com o aprimoramento de equipamentos e técnicas específicas em cada lugar. Mais recentemente, no final do século XX, surgiram as paredes artificiais, nas quais foi possível comparar os feitos atléticos dos escaladores em locais desenvolvidos especialmente para competições. Criou-se a escalada esportiva indoor e o circuito mundial teve seu princípio em 1989 (TOMASZEWSKI; GRAJEWSKI; LEWANDOWSKA, 2011). Desde então, os campeonatos espalharam-se pelo mundo, tal qual ocorre com a quase totalidade das atividades corporais nas quais se pode mensurar esforços e desempenhos (PEREIRA, 2010).


O surgimento da escalada indoor é impreciso, todavia a literatura acadêmica aponta para as décadas de 1970 e 1980, provavelmente na Rússia ou na Itália. Porém, há registros de que em 1939 nos EUA já eram fixadas pedras em paredes para a prática da escalada (SILVA et al. 2007). Na década de 1960 um muro de tijolo também com pedras foi montado numa escola na Inglaterra. No mesmo país, o professor de Educação Física Don Robinson foi responsável por criar uma parede no ano de 1964 na Universidade de Leeds em que lecionava. E antes dele, outras duas escolas nas cidades de West Midlands (1961) e Notthingam (1962) tiveram suas paredes construídas para incentivar a prática esportiva entre os jovens (FERNANDES, 2018). É provável que as diferenças de datas se relacionem com a dificuldade de registrar e divulgar essas paredes, pois a própria escalada em rocha e gelo ainda estava se estabelecendo na sociedade. Além disso, a tecnologia permitiu, a partir das década de 1970, que se criassem agarras feitas em resina plástica misturadas a minérios, que permitem moldar pegas variadas e com alta resistência facilitando a difusão da escalada indoor e permitindo a criação de campeonatos com maior qualidade, portanto, é compreensível que o período entre 1970-80 tenha sido crucial para a expansão da escalada em paredes artificiais. Segundo Bertuzzi et al (2001) o primeiro local específico para a prática da escalada indoor no Brasil foi construído em 1993 em São Paulo, o que mostra que além do país não ter uma geografia com altas montanhas e picos de neve, o que não contribui para uma cultura de montanha como se vê na Europa, EUA e Argentina, ainda demorou um bom tempo para se iniciar a construção de paredes de escalada que facilitam o acesso do público à prática do esporte.


Em 2016, o Comitê Olímpico Internacional (COI) definiu a entrada das novas modalidades para os Jogos Olímpicos de Tóquio, foram elas: skate, surfe, caratê, beisebol e escalada (BRASIL 2016). A partir de então, a International Federation of Sport Climbing (IFSC), orgão máximo que cuida da escalada competitiva mundial, iniciou um processo de preparação para que a modalidade apresente-se dentro dos padrões exigidos pelo COI e se estabeleça como esporte olímpico definitivamente. Segundo o presidente da IFSC, a participação nos Jogos Olímpicos dará dignidade e reconhecimento à escalada esportiva e o mundo terá a oportunidade de ver uma modalidade espetacular, limpa, dinâmica e jovem em Tóquio (SCOLARIS, 2017).


No Brasil, o primeiro campeonato de escalada foi realizado no ano de 1989 e vencido por Paulo “Macaco” Bastos (ILHA, 2010), naquela época o país ainda engatinhava no esporte e a dificuldade das vias eram em torno de 7º grau, muito pouco comparado à atualidade, em que as vias de campeonato estão em torno de 9º grau, mas para a realidade nacional, os feitos deste campeão e de outros escaladores da época eram notáveis. Recentemente foi criada a Associação Brasileira de Escalada Esportiva (ABEE) que é a instituição associada à IFSC e que tem por função organizar as competições, promover o esporte e indicar os atletas para campeonatos internacionais. O Brasil não possui tradição na escalada esportiva e nossos atletas não conseguem bons resultados em competições internacionais. Na tentativa de reverter esse quadro, a ABEE conseguiu montar uma equipe com homens e mulheres para disputar algumas etapas dos principais campeonatos mundiais, pois pretende dar experiência aos atletas e ainda pretende-se que algum deles consigam passar para as semifinais, feito apenas conseguido em 2009, com o atleta Cesar Grosso que ficou na 15ª colocação na Copa do Mundo de Barcelona (ABEE, 2018).


Diante disso, a hipótese inicial deste estudo foi que os atletas “profissionais” (PRO) devem estar em um nível mais organizado e elevado de treinamento em comparação aos escaladores “amadores” (AMA), portanto, este trabalho pretende compreender alguns motivos que condicionam os resultados pouco favoráveis dos atletas brasileiros em competições e procura analisar quais seriam as medidas cabíveis para que se melhore o desempenho em futuras competições.


MATERIAIS E MÉTODOS

Amostra

Oitenta e um escaladores (51 homens e 30 mulheres) participaram voluntariamente do estudo. A categoria PRO foi composta de 47 escaladores (idade 30,2 ± 6,6; altura 1,70 ± 0,26m; massa corporal 62,8 ± 9,0 kg; índice de massa corporal (IMC) 20,8 ± 1,6 kg·m2) e a categoria AMA foi composta de 34 escaladores (idade 22,8 ± 8,1; altura 1,71 ± 0,11 m; massa corporal 61,9 ± 9,6 kg; índice de massa corporal 21,1 ± 1,9 kg·m2). Ressalta-se que houve um atleta da categoria PARACLIMBING (atletas com deficiência) que disputou na categoria amador.


Trata-se de uma pesquisa descritiva com abordagem qualitativa e quantitativa, que busca determinar e descrever as opiniões de uma população específica (THOMAS e NELSON, 2002), podendo produzir um perfil dos escaladores de competição brasileiro. A

pesquisa foi realizada durante o Campeonato Brasileiro de Boulder ocorrido no ginásio Casa de Pedra situado na cidade de São Paulo, Brasil e faz parte das etapas do ranking de escalada nacional. O formato Boulder consiste em subir paredes com cerca de 4 metros de altura e a segurança é feita com o uso de colchões. Todos participantes assinaram o termo de consentimento livre esclarecido (TCLE) aprovado pelo comitê de ética para estudos com humanos da Universidade Nove de Julho (número do parecer nº 82.781).


Procedimentos

Foi aplicado um questionário baseado na pesquisa de Pereira e Manoel (2008) que traçou o perfil de escaladores do Estado de São Paulo. Neste instrumento, perguntou-se aos participantes do Campeonato Brasileiro de Boulder de 2018 sobre o tempo de prática da escalada, a modalidade preferida, o tempo dedicado aos treinamentos, as atividades realizadas complementares ao treino específico de escalada, a presença de treinador para o atleta e a existência de patrocínio.


O questionário foi respondido cerca de uma hora antes do início da competição, na área conhecida como isolamento, em que os atletas ficam confinados com o objetivo de evitar a visualização prévia das vias que serão escaladas durante a competição. Esta regra é utilizada para que um atleta não tenha a vantagem de observar como o adversário fez suas tentativas.


Análise estatística

Por meio do software Statistica v.8 (StatSoft, Inc.), verificou-se a normalidade das distribuições das variáveis (teste de Shapiro-Wilk). As variáveis idade, peso, massa corporal, índice de massa corporal, frequência de treino por semana e horas de treino na semana, foram apresentadas como médias ± desvios padrão. As comparações entre os grupos foram realizadas por meio de teste t de Student para amostras dependentes.


Para as variáveis tempo em que o atleta pratica a escalada, tipo de escalada, ambiente preferido, patrocínio aos atletas, atividades complementares, acompanhamento profissional, treinador escalador e formação do treinador, foi realizado uma análise descritiva comparando as respostas dos atletas PRO com os AMA e identificando na literatura aspectos que possam colaborar para a compreensão das diferenças e semelhanças entre os grupos e das necessidades de ajustes na forma de treinamento e na organização da escalada esportiva brasileira.


Foram consideradas diferenças estatísticas com nível de significância igual a 5% (α =0,05).


RESULTADOS

Do indivíduo

Sobre os dados de massa corporal, altura e IMC, não houve diferenças entre os atletas das categorias PRO masculino e AMA masculino, tampouco nas categorias PRO feminino e AMA feminino (Tabela 1). Isto indica que há um padrão homogêneo em relação ao IMC, pois o atleta sente a necessidade de baixo índice de massa corporal para vencer a força da gravidade. Em relação ao número de horas de treino por dia, todos os escaladores afirmam treinar entre 2 a 5 horas em cada sessão.



Tabela 1 - Médias e desvio padrão dos entre os grupos PRO E AMA.

Variáveis Masculino Feminino

PRO AMA p1 PRO AMA p1

Altura (m) 1,77 ± 0,07 1,78 ± 0,07 0,37 1,65 ± 0,04 1,62 ± 0,07 0,17

Massa corporal (kg) 67,4 ± 8,8 67,5 ± 7,3 0,97 54,8 ± 5,09 54,9 ± 7,30 0,96

IMC (kg·m2) 21,3 ± 1,6 21,3 ± 2,1 0,89 20,1 ± 1,71 0,7 ± 1,80 0,44

p1 teste t de Student


A respeito do tempo em que o atleta pratica a escalada, nota-se que os atletas PRO possuem um tempo superior a 5 anos em relação aos escaladores AMA que escalam em média 2,5 anos, o que demonstra que a experiência em competições de escalada é um fator importante de desempenho.


Outro item investigado foi em relação a preferência do atleta quanto ao tipo de escalada (Boulder ou Esportiva). Os participantes da pesquisa podiam escolher uma ou as duas opções. Dentre o grupo de escaladores PRO, 38% preferem escalar apenas Boulder, 32% tem preferência pela escalada esportiva e 30% não tem uma preferência definida, escalam Boulder e esportiva. Para o grupo AMA, observou-se que 59% preferem escalar apenas Boulder, 29% preferem esportiva e apenas 12% escalam as duas modalidades.


Sobre o local, verificou-se que na categoria PRO houve um maior interesse pela rocha (62%). Para a categoria AMA a escolha do indoor está bem equilibrada com a rocha (41% e 44%, respectivamente). O menor tempo de experiência da categoria AMA pode ter contribuído para o menor interesse em escalar na rocha, uma vez que, são necessários conhecimentos mais profundos sobre técnicas de segurança e maiores custos de equipamentos e viagens aos locais de prática.


Da relação indivíduo - sociedade

Todos os atletas que responderam o questionário são das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste (Figura 1). A maior presença de atletas de São Paulo, provavelmente, decorre do campeonato ter sido no próprio Estado, porém Minas Gerais aparece com mais de 20 atletas, nas duas categorias, o que demonstra boa organização dos atletas deste Estado. Observa-se que as demais regiões não estão representadas, o que demonstra que a escalada indoor ainda não se difundiu por todo o país.


Número de atletas - Unidades Federativas

PRO AMADOR

MG 11 2

SC 4